Série: O culto cristão Parte-3
O culto como recapitulação da salvação
Nos
artigos anteriores aqui e aqui . afirmei que os cultos de algumas igrejas são centrados em
homens e em um materialismo absurdo; também enfatizei que a maioria dos membros
dessas igrejas só pensa em riqueza e no aqui e agora, motivados por interesse e
não por devoção. Além disso, abordei de forma superficial a questão do
sincretismo religioso, ou seja, colocar elementos de outras religiões no culto.
Acrescentamos neste artigo o fato do culto
cristão começar e terminar em Jesus. Um culto que não tem essa característica é
um culto carente de propósito, tornando-se qualquer reunião social, menos um
culto. No culto cristão a Glória tem que ser dada ao Pai, ao Filho e ao
Espírito Santo como era no passado, como é hoje e eternamente.
Dentro
desta ótica podemos entender o culto cristão sendo possível porque Jesus Cristo
ofereceu, por seu ministério terreno, o culto suficiente e perfeito. Sendo
assim, fica para nossa compreensão a recapitulação
daquilo que Deus já fez por nós no culto.
J.J.
Von Allmen[2], no entanto, nos reporta o
cuidado que devemos ter com o termo ‘recapitulação’ em seu importante livro O Culto Cristão: teologia e prática, onde
diz que recapitulação do latim ‘recapitulare’
Significa, na linguagem mais comum, simplesmente
‘resumir’, ‘confirmar’ ou ainda ‘repetir’. Nesse último sentido, o termo é
perfeitamente apropriado porque o culto é o que confirma sempre a história da
salvação, cujo ponto culminante se encontra na intervenção encarnada do Cristo.
Nesse resumo e confirmação reiterados, Jesus continua sua obra salvadora por
meio do Espírito Santo.”[3]. Essa tal recapitulação
diz respeito à história da salvação tanto no sentido cronológico como no
teológico, afirma Dr. von Allmen.
De
acordo von Allmen (2006, p.33), “Afirmar, portanto, que o culto recapitula a
história da salvação no sentido cronológico, equivale a afirmar que ele a
resume e confirma naquilo que ela tem de recapitulante, isto é, em outras
palavras, na medida em que o culto é essencialmente uma recapitulação da obra
do cristo.”
Em
conformidade com o autor entendemos que a recapitulação da história da salvação
no sentido cronológico, significa a conjugação do passado, do presente e do
futuro messiânico e assim o culto tem continuidade histórica da salvação que foi
completada em Jesus Cristo.
Mas
o que significa afirmar o culto como a recapitulação da história da salvação
também no plano teológico? Segundo von Allmen se constitui de uma revelação da
vontade salvadora de Deus, de uma reconciliação que torna possível o
cumprimento dessa vontade e de proteção de salvaguarda a eficácia dessa
vontade. De acordo com von Allmen (2006, p.37) “A história da salvação,
portanto, engloba três aspectos: profético, sacerdotal e real.”
Além disso ao
examinar a história da salvação, não mais do ponto de vista cronológico, mas do
teológico, somos forçados segundo von Allmen, a reconhecer que o ponto
culminante e capital, o elemento que a justifica, explica e resume, se localiza
na obra do Cristo. Cristo é o profeta por excelência, porque é ao mesmo tempo o
arauto e o conteúdo da revelação plena de Deus.
Dessa
forma, no culto realiza-se a leitura da Palavra da Salvação fazendo a releitura
da narrativa bíblica em que nosso Senhor Jesus foi morto pelos nossos pecados,
mas também ressuscitou ao terceiro dia. Assim sendo, a igreja no culto tem a
oportunidade de demonstrar qual sua verdadeira natureza. O que faz a reunião da
igreja não ser uma ilusão é Deus estar presente no ato do culto. Deus presente
no culto é o que impede que este vire um cerimonial mecânico.
Portanto,
no culto imploramos a Deus o que precisamos em nossas vidas; é Ele que concede
o que necessitamos segundo sua vontade, soberania e no momento que lhe apraz.
No culto Deus serve e é servido porque Ele é o principal oficiante do mesmo,
Ele é quem recebe a adoração e é o propiciador da oportunidade de adorarmos,
por isso o culto cristão é verdadeiro.
“É por meio da fé que a igreja percebe que seu culto não é nem criminoso, nem mentiroso, nem enganoso, porque sabe que é Deus que chama à adoração, na qual Ele se dá à igreja e acolhe ”[4].
“É por meio da fé que a igreja percebe que seu culto não é nem criminoso, nem mentiroso, nem enganoso, porque sabe que é Deus que chama à adoração, na qual Ele se dá à igreja e acolhe ”[4].
A
verdade nos alcança no culto através da Palavra escrita e pregada. O Espírito
Santo ilumina a nossa mente para entendermos a mente de Deus naquilo que lemos
e ouvimos.[i]
Sendo
assim, uma afirmação muito importante de J.J von Allmen sobre o culto é: “... a
recapitulação da história da salvação, na medida em que reatualiza o passado,
antecipa o futuro e glorifica o presente messiânico.” Além disso, von Allmen
declara ser exatamente por essa razão que se pode chamar o culto de “fenômeno
escatológico”[5].
O
culto é um ato de alegria porque usufrui da presença do ressuscitado. Sempre
importante lembrar que o Espírito Santo assume a ausência física de Cristo e, assim, Ele (o Espírito Santo) faz
todas as coisas que Cristo fez pelos seus discípulos.
No culto por causa de Jesus, o Pai se faz
conhecido na história e através do Espírito Santo reconhecemos tal fato como
revelação divina. No púlpito é oferecido o Pão da Vida, Jesus, que é a
Revelação, o Pai é o Revelador e o Espírito Santo Revelacionalidade. [6]Porque
Pai, Filho e Espírito Santo são boas novas.
No céu na terra, que
maravilhas,
Vai operando o poder do Senhor!
Mas seu amor aos homens perdidos,
Das maravilhas é sempre a maior.
Por:
Georgington Ribeiro
[1] Hino 7 “ Maravilhas divinas” Cantor
Cristão; Hinário Novo Cântico número 33
[2] É
professor da faculdade Protestante de Teologia de Neuchâtel, Suíça
[3] Allmen, J.J. von, O culto cristão: teologia e prática/
J.J. von Allmen; tradução Dírson Glênio Vergara dos Santos. São Paulo: ASTE,
2006, p.32
[4] VON ALLMEN, J. J. O Culto Cristão. São Paulo: Aste, 2005,
p.183
[5] llmen, J.J. von, O culto cristão:
teologia e prática/ J.J. von Allmen; tradução Dírson Glênio Vergara
dos Santos. São Paulo: ASTE, 2006, p.35
[6]
Neologismo de Barth formado a partir de “revelado”, para indicar que o Espírito
Santo é a consumação da revelação. Citado por Kevin J. Vanhoozer em A trindade, as escrituras e a função do
teólogo, Editora: Vida Nova, p. 57
[i] Livro base O Espírito Santo- John
Owen- Editora Puritanos- 2012- tradução Marcos Vasconcelos, p.39
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